AUTOCRÍTICA EXCESSIVA: POR QUE PARECE QUE NADA DO QUE VOCÊ FAZ É SUFICIENTE

(Atendimentos presenciais na Vila Madalena, em São Paulo e online)

Este artigo faz parte da série "Ansiedade, depressão, estresse e outros sofrimentos emocionais", uma sequência de textos sobre diferentes formas de sofrimento emocional observadas na prática clínica.

Nem sempre quem vive sob autocrítica constante se reconhece como alguém inseguro.

Às vezes, o que aparece é justamente o contrário.

Uma forma de estar no mundo que parece organizada, responsável, estável. Pessoas que conseguem sustentar o que precisa ser feito, que respondem ao que é esperado, que mantêm o funcionamento da vida sem grandes aparentes rupturas.

Mas essa estabilidade não nasce de uma sensação de segurança.

Ela se sustenta como vigilância.

Uma atenção contínua voltada para o que ainda pode falhar, para o que ainda não está no ponto, para o que poderia ter sido diferente.

E isso muda silenciosamente a forma como tudo é vivido.

Porque o que acontece não permanece simplesmente acontecendo.

Ele é atravessado por uma interrupção quase imediata, como se não pudesse existir por inteiro antes de ser revisto.

O QUE A AUTOCRÍTICA FAZ COM A EXPERIÊNCIA

Na prática clínica, esse funcionamento não aparece apenas como alguém que se cobra muito.

Ele aparece como alguém que não consegue permanecer no que vive.

Cada experiência é rapidamente capturada por uma espécie de revisão interna.

Não há tempo de repouso entre o acontecimento e o julgamento.

E isso vai alterando algo mais profundo do que o humor ou o comportamento.

Vai alterando a forma como os estados internos se sucedem.

Há momentos em que surge alegria, mas ela não encontra espaço para se instalar. É imediatamente atravessada por uma análise silenciosa sobre se aquilo foi suficiente.

A raiva aparece, mas não ganha desenvolvimento próprio. Ela é contida antes de se organizar como força, como limite, como direção.

A tristeza se aproxima, mas não consegue permanecer tempo suficiente para se transformar em recolhimento. Ela é rapidamente interpretada, deslocada.

Até a gratidão, quando aparece, parece frágil demais para se sustentar, porque logo é comparada com o que ainda falta.

O ponto central não é a presença ou ausência de sentimentos.

É a dificuldade de permanecer neles.

De atravessá-los.

De permitir que um estado dê lugar a outro sem que isso precise ser corrigido ou justificado.

QUANDO A VIDA PERDE FLUIDEZ

Com o tempo, essa forma de funcionamento cria uma experiência de vida que não é exatamente intensa, mas estreitada.

As coisas continuam acontecendo, mas perdem variação interna.

Os estados deixam de se suceder com naturalidade.

Tudo começa a girar em torno de uma mesma lógica implícita: suficiente ou insuficiente, certo ou errado, adequado ou inadequado.

E isso vai reduzindo a liberdade de circulação entre os modos de sentir.

Porque viver não é permanecer em um único estado.

É poder atravessar estados diferentes sem precisar sair de si para isso.

Quando essa travessia se interrompe, a vida não colapsa.

Ela se contrai.

Fica mais rígida, mais previsível, menos habitável.

QUANDO NADA CONSEGUE TERMINAR

Existe um momento em que isso se torna mais visível.

Algo é feito, concluído, entregue.

Mas o fim não se sustenta como fim.

Ele é imediatamente reaberto por uma leitura do que poderia ter sido diferente.

E assim o que deveria ter fechado permanece em suspensão.

Nada termina de fato.

Tudo se transforma em versão provisória de si mesmo.

Isso produz um tipo de exaustão que não vem do excesso de ação, mas da ausência de conclusão interna.

Até o descanso perde sua qualidade de descanso, porque também passa a ser interpretado como algo que deveria estar sendo melhor aproveitado.

O QUE ESTÁ ACONTECENDO NESSE MODO DE SE RELACIONAR CONSIGO

Na Gestalt-terapia, não se trata de buscar uma origem escondida para esse funcionamento.

O foco está no que acontece agora, na forma como a experiência se organiza enquanto está acontecendo.

O que aparece com frequência é uma atenção que se fixa no que falta antes mesmo que o que existe possa ser assimilado.

Como se a experiência não pudesse se sustentar sem passar por um filtro imediato de correção.

Com o tempo, esse filtro deixa de ser percebido como algo que acontece.

Ele passa a ser confundido com a própria forma de perceber.

O QUE SE PERDE QUANDO TUDO PRECISA SER AVALIADO

Quando isso se instala, o que se perde não é a capacidade de sentir.

É a continuidade entre os estados.

Alegria deixa de ter permanência própria.

Raiva deixa de se organizar como limite legítimo.

Tristeza perde profundidade.

Até momentos de prazer ficam atravessados por uma vigilância silenciosa, como se precisassem ser aprovados antes de existir plenamente.

A vida deixa de ser uma sequência viva de experiências.

Ela passa a ser uma sequência de avaliações sobre experiências.

O PROBLEMA NÃO É TER EXIGÊNCIA

Ter responsabilidade, padrões altos e desejo de fazer bem não é, em si, o problema.

O sofrimento começa quando a experiência deixa de poder existir sem ser imediatamente corrigida.

Quando nada pode simplesmente ser vivido.

Quando tudo precisa ser validado antes de ter continuidade.

Nesse ponto, a exigência deixa de orientar escolhas.

Ela começa a estreitar o campo da experiência.

E o que antes era vida em movimento passa a ser vida em permanente revisão.

O QUE MUDA NA TERAPIA

O processo terapêutico não vai na direção de eliminar a autocrítica.

Nem de substituir exigência por conforto permanente.

O que começa a mudar é algo mais sutil.

A possibilidade de sustentar a experiência por mais tempo antes de interrompê-la.

De permanecer um pouco mais no que está acontecendo sem transformá-lo imediatamente em julgamento.

Isso acontece aos poucos, na relação, no tempo, no contato com alguém que não exige que tudo seja imediatamente traduzido em desempenho ou explicação.

A pessoa começa a experimentar que é possível atravessar estados sem perder continuidade consigo mesma.

PARA ONDE ESSA SEQUÊNCIA CONTINUA

Ao longo desta série, ansiedade, estresse, insônia, crises de pânico, burnout e autocrítica excessiva aparecem como diferentes formas pelas quais o sofrimento emocional pode se organizar.

Os próximos artigos aprofundam experiências como dependência emocional, culpa, vergonha, solidão e vazio emocional, mostrando como esses processos frequentemente se articulam na prática clínica e como podem ser compreendidos em um processo psicoterapêutico.

👉 Artigo anterior – Burnout: Quando o corpo e a mente não conseguem mais continuar

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👉 Próximo artigo – Dependência emocional: Quando a relação passa a definir quem você é

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