AUTOESTIMA: POR QUE É TÃO DIFÍCIL SE SENTIR SUFICIENTE NA PRÓPRIA VIDA?
AUTOESTIMA: POR QUE É TÃO DIFÍCIL SE SENTIR SUFICIENTE NA PRÓPRIA VIDA?
Este artigo faz parte da série "Ansiedade, depressão, estresse e outros sofrimentos emocionais", uma sequência de textos sobre diferentes formas de sofrimento emocional observadas na prática clínica.
(Atendimentos presenciais na Vila Madalena, em São Paulo e online)
Existe uma experiência que aparece de formas diferentes no consultório.
Às vezes chega como comparação.
Às vezes como uma sensação de inadequação difícil de explicar.
Às vezes como uma pergunta silenciosa:
“Por que, mesmo fazendo tantas coisas, eu ainda sinto que falta alguma coisa em mim?”
A pessoa olha para a própria história e encontra conquistas.
Reconhece que estudou, trabalhou, construiu relações, superou dificuldades.
Mas existe uma distância entre aquilo que ela sabe racionalmente e aquilo que consegue sentir.
Ela sabe que tem valor.
Mas não consegue descansar nessa percepção.
Recebe reconhecimento, mas ele não permanece.
Recebe carinho, mas procura sinais de rejeição.
Conquista algo importante, mas rapidamente a atenção se desloca para aquilo que ainda não aconteceu.
Como se existisse uma voz interna dizendo:
“Sim, mas ainda não é suficiente.”
O QUE É AUTOESTIMA NA EXPERIÊNCIA REAL
Quando falamos em autoestima, muitas vezes pensamos em gostar de si mesmo ou ter pensamentos positivos sobre a própria pessoa.
Mas, na prática clínica, autoestima envolve algo mais profundo.
Envolve a forma como alguém se relaciona consigo mesmo quando está sozinho.
Quando erra.
Quando não consegue corresponder às próprias expectativas.
Quando recebe uma crítica.
Quando precisa escolher sem ter certeza.
Autoestima não é apenas a imagem que uma pessoa tem sobre si.
É a qualidade da relação que ela construiu consigo.
Uma pessoa pode ser competente, admirada e reconhecida externamente, mas carregar internamente uma sensação persistente de insuficiência.
Por isso, autoestima não é simplesmente uma questão de pensamento.
É uma experiência vivida.
A DIFERENÇA ENTRE TER DÚVIDAS E NÃO SE SENTIR SUFICIENTE
Todos nós temos momentos de insegurança.
Existem situações em que duvidamos, erramos, nos sentimos vulneráveis.
Isso faz parte da experiência humana.
O sofrimento aparece quando essa dúvida deixa de ser passageira e começa a definir a forma como a pessoa se enxerga.
Um momento difícil se transforma em uma conclusão sobre quem ela é.
“Eu falhei.”
se transforma em:
“Eu sou um fracasso.”
“Essa relação não funcionou.”
se transforma em:
“Existe algo errado comigo.”
“Eu não consegui dessa vez.”
se transforma em:
“Eu nunca consigo.”
A experiência deixa de estar relacionada a uma situação específica e passa a atingir a própria identidade.
QUANDO A VIDA É VIVIDA ATRAVÉS DO OLHAR DOS OUTROS
Uma das formas mais dolorosas de baixa autoestima aparece quando a pessoa depende excessivamente da confirmação externa para sentir segurança interna.
Ela precisa perceber que foi aprovada.
Que agradou.
Que correspondeu.
Que foi escolhida.
O problema é que esse tipo de segurança nunca se estabelece completamente.
Porque o olhar do outro muda.
As circunstâncias mudam.
As pessoas podem reconhecer algo hoje e não reconhecer amanhã.
Quando o valor pessoal depende principalmente de fora, a pessoa fica em uma busca constante por sinais de que está tudo bem.
É como tentar encher um recipiente que possui um pequeno vazamento.
Por mais que receba algo, nunca consegue permanecer cheio.
A RELAÇÃO ENTRE AUTOESTIMA E AUTOCRÍTICA
A autoestima está profundamente ligada à forma como a pessoa conversa consigo mesma.
Depois de um erro, algumas pessoas conseguem pensar:
“Isso foi difícil. Vou entender o que aconteceu e seguir.”
Outras entram em um movimento mais duro:
“Como eu pude fazer isso?”
“Eu deveria saber.”
“Eu sempre estrago as coisas.”
A diferença não está apenas no acontecimento.
Está na relação estabelecida consigo depois dele.
Uma pessoa pode enfrentar uma dificuldade e ainda permanecer conectada consigo.
Outra pode transformar uma dificuldade em uma ameaça ao próprio valor.
Como vimos no artigo anterior sobre autocrítica excessiva:
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a cobrança interna constante pode impedir que a pessoa reconheça aquilo que já existe.
Ela passa tanto tempo tentando melhorar que perde a capacidade de perceber o próprio caminho.
AUTOESTIMA NÃO É SE SENTIR BEM O TEMPO TODO
Existe uma ideia equivocada de que uma pessoa com boa autoestima deveria estar sempre confiante, segura e satisfeita.
Mas isso não corresponde à experiência humana real.
Uma autoestima mais integrada não significa ausência de medo.
Não significa nunca sentir vergonha.
Não significa nunca precisar de apoio.
Significa conseguir permanecer em contato consigo mesmo mesmo quando algo é difícil.
É poder dizer:
“Eu estou passando por um momento complicado.”
sem transformar isso em:
“Eu sou um problema.”
É reconhecer limitações sem transformar limites em condenação.
COMO A AUTOESTIMA SE FORMA AO LONGO DA VIDA
A relação que uma pessoa constrói consigo mesma não aparece pronta.
Ela vai sendo formada nas experiências de contato.
Na forma como foi vista.
Na forma como foi escutada.
Na forma como suas emoções foram recebidas.
Na possibilidade que teve de existir sem precisar sempre corresponder.
Isso não significa procurar culpados no passado.
Significa compreender que a maneira como aprendemos a nos relacionar conosco geralmente nasceu em algum contexto.
Muitas pessoas aprenderam cedo que eram mais reconhecidas quando entregavam resultados.
Quando eram fortes.
Quando não davam trabalho.
Quando correspondiam.
Com o tempo, essa estratégia pode continuar funcionando externamente.
Mas internamente pode deixar uma pergunta dolorosa:
“Se eu não estiver produzindo, acertando ou agradando, ainda tenho valor?”
A AUTOESTIMA E A DIFICULDADE DE RECEBER AFETO
Um aspecto que aparece com frequência é a dificuldade de receber coisas boas.
Um elogio é diminuído.
Um cuidado é desconfiado.
Um reconhecimento é rapidamente explicado.
“Ela falou isso porque gosta de mim.”
“Não foi nada demais.”
“Qualquer pessoa faria.”
A pessoa consegue oferecer compreensão aos outros, mas encontra dificuldade em oferecer a mesma humanidade para si.
Existe uma espécie de desequilíbrio interno:
muito critério para si,
muita compreensão para os outros.
UMA LEITURA CLÍNICA DESSE PROCESSO
Em uma perspectiva humanista e Gestalt-terapêutica, autoestima não é entendida como uma característica fixa que alguém possui ou não possui.
Ela está relacionada à forma como a pessoa está em contato consigo e com o mundo.
Quando existe pouca consciência sobre as próprias necessidades, sentimentos e limites, a pessoa pode começar a viver mais a partir de expectativas externas do que da própria experiência.
Ela passa a perguntar:
“O que esperam de mim?”
antes de perguntar:
“O que eu sinto?”
“O que faz sentido para mim?”
O processo terapêutico busca recuperar esse contato.
Não criando uma versão artificialmente positiva de si.
Mas permitindo uma relação mais verdadeira consigo.
O QUE COMEÇA A MUDAR NA TERAPIA
A mudança não acontece quando a pessoa aprende simplesmente a repetir frases positivas.
Ela acontece quando começa a experimentar uma relação diferente consigo.
Isso envolve perceber:
como se julga;
quais situações despertam sensação de inadequação;
quais necessidades foram deixadas de lado;
como busca aprovação;
como abandona a própria experiência para corresponder ao outro.
Aos poucos, a pessoa começa a construir algo mais profundo do que confiança.
Começa a construir intimidade consigo.
A possibilidade de estar consigo sem precisar constantemente se corrigir.
QUANDO VOCÊ NÃO PRECISA MAIS SER OUTRA PESSOA PARA SE SENTIR ACEITO
Um dos movimentos mais importantes no fortalecimento da autoestima é perceber que valor pessoal não precisa ser conquistado todos os dias.
Existe uma diferença entre desejar crescer e acreditar que precisa se transformar completamente para merecer existir.
A vida não exige uma versão perfeita de você.
Mas muitas pessoas passam anos tentando alcançar uma imagem impossível de si mesmas.
E enquanto perseguem essa imagem, deixam de encontrar a pessoa real que já está presente.
A autoestima começa a mudar quando existe menos distância entre quem você acredita que deveria ser e quem você consegue reconhecer que é.
PARA ONDE ESSA SEQUÊNCIA CONTINUA
Ao longo desta série, ansiedade, estresse, insônia, crise de pânico, burnout, autocrítica e autoestima aparecem como diferentes formas pelas quais a relação consigo mesmo pode se perder.
Quando a pessoa passa muito tempo tentando controlar, agradar ou provar seu valor, muitas vezes isso também aparece dentro das relações.
No próximo artigo da sequência:
DEPENDÊNCIA EMOCIONAL: POR QUE EU ME PERCO TANTO NAS RELAÇÕES?
👉 ARTIGO ANTERIOR (AUTOCRÍTICA EXCESSIVA):
https://www.tiagocolladobastos.com.br/Post/
👉 PRÓXIMO ARTIGO (DEPENDÊNCIA EMOCIONAL):