(Atendimentos presenciais na Vila Madalena, em São Paulo e online)

Este artigo faz parte da série "Ansiedade, depressão, estresse e outros sofrimentos emocionais", uma sequência de textos sobre diferentes formas de sofrimento emocional observadas na prática clínica.

Existe uma experiência que aparece com frequência no consultório e que costuma ser confundida com falta de disciplina.

A pessoa diz:

"Eu começo várias coisas e quase nunca termino."

"Eu sei exatamente o que preciso fazer, mas parece que não consigo começar."

"Quando finalmente consigo focar, perco completamente a noção do tempo."

"Minha cabeça pula de uma coisa para outra o dia inteiro."

Em muitos casos, essa experiência acompanha a pessoa desde muito cedo.

Mas ela só começa a causar sofrimento importante na vida adulta, quando aumentam as responsabilidades, o trabalho, os relacionamentos e as exigências do cotidiano.

Ao longo dos anos, muitas pessoas passam a acreditar que são preguiçosas, desorganizadas ou incapazes de manter constância.

Mas nem sempre essa dificuldade fala sobre falta de esforço.

Em alguns casos, ela pode estar relacionada ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, conhecido como TDAH.

O QUE É O TDAH NO ADULTO NA EXPERIÊNCIA REAL

Na prática clínica, o TDAH costuma aparecer de maneira muito diferente da imagem que muitas pessoas aprenderam na infância.

Nem sempre existe hiperatividade evidente.

Nem sempre existe agitação física.

Muitas vezes, o que aparece é uma dificuldade persistente para organizar a própria atenção ao longo do dia.

Isso pode se manifestar como:

dificuldade para iniciar tarefas

procrastinação frequente

esquecimentos constantes

sensação de desorganização

perda de objetos

dificuldade para administrar o tempo

facilidade para se distrair

alternância entre distração e hiperfoco

A questão central não é falta de inteligência.

Também não é falta de vontade.

É uma dificuldade em regular a atenção de forma consistente.

QUANDO O PROBLEMA NÃO É O FOCO, MAS A REGULAÇÃO DA ATENÇÃO

Uma ideia muito comum é imaginar que pessoas com TDAH simplesmente não conseguem prestar atenção.

Na realidade, muitas conseguem prestar atenção profundamente.

O desafio costuma ser decidir onde essa atenção permanece.

Por isso, algumas tarefas parecem impossíveis de iniciar.

Enquanto outras prendem completamente a pessoa durante horas.

Esse funcionamento pode gerar uma sensação constante de descontrole sobre a própria rotina.

QUANDO TUDO EXIGE MAIS ESFORÇO

Uma das experiências mais difíceis é perceber que atividades consideradas simples pelos outros parecem exigir uma quantidade enorme de energia.

Organizar compromissos.

Responder mensagens.

Cumprir prazos.

Finalizar projetos.

Manter a casa organizada.

Administrar horários.

Pequenas tarefas podem consumir uma energia desproporcional.

Isso costuma gerar frustração.

Porque a pessoa sabe o que precisa fazer.

Mas nem sempre consegue transformar essa intenção em ação.

O IMPACTO NA VIDA COTIDIANA

Ao longo dos anos, essas dificuldades podem produzir consequências importantes.

A pessoa começa a perder prazos.

Acumula tarefas.

Esquece compromissos.

Tem dificuldade para organizar prioridades.

Precisa trabalhar muito mais para alcançar resultados semelhantes aos de outras pessoas.

Com o tempo, isso frequentemente gera culpa.

A culpa alimenta a autocrítica.

A autocrítica aumenta a ansiedade.

E a ansiedade torna ainda mais difícil organizar a atenção.

Forma-se um ciclo que pode produzir sofrimento significativo.

TDAH, ANSIEDADE E ESGOTAMENTO

Ao longo desta sequência de textos, alguns temas aparecem profundamente conectados.

A ansiedade acelera pensamentos.

O estresse mantém o organismo em estado constante de alerta.

O burnout reduz os recursos físicos e emocionais.

A autocrítica transforma qualquer dificuldade em uma sensação de fracasso.

Quando existe TDAH, essas experiências podem acontecer ao mesmo tempo.

Na tentativa de compensar suas dificuldades, muitas pessoas passam a trabalhar mais, controlar mais e exigir mais de si mesmas.

Durante algum tempo isso pode funcionar.

Mas frequentemente esse esforço tem um custo emocional elevado.

UMA LEITURA CLÍNICA DESSE PROCESSO

Na perspectiva humanista e na Gestalt-terapia, um diagnóstico não resume quem uma pessoa é.

Mais importante do que um rótulo é compreender como aquela experiência se organiza na vida concreta.

Cada pessoa desenvolve maneiras próprias de lidar com distrações, esquecimentos, exigências e expectativas.

Algumas tornam-se extremamente perfeccionistas.

Outras vivem em estado permanente de urgência.

Outras alternam períodos de produtividade intensa com momentos de enorme dificuldade para agir.

O trabalho terapêutico procura compreender esse funcionamento sem reduzir a pessoa ao diagnóstico.

O QUE COMEÇA A MUDAR NA TERAPIA

Na psicoterapia, o objetivo não é apenas aumentar produtividade.

O processo busca ampliar a consciência sobre como atenção, emoções e corpo se organizam diante das experiências do cotidiano.

Isso inclui perceber:

como a atenção se desloca

como surgem momentos de procrastinação

como aparece a ansiedade diante das tarefas

como a autocrítica interfere nas escolhas

como o corpo responde às exigências diárias

Ao compreender esse funcionamento, torna-se possível construir formas mais sustentáveis de lidar com a própria experiência.

QUANDO O SOFRIMENTO NÃO SE EXPLICA APENAS PELO TDAH

Nem toda dificuldade de concentração significa TDAH.

Ansiedade intensa.

Estresse crônico.

Insônia.

Burnout.

Sobrecarga emocional.

Todos esses processos também podem comprometer a atenção e a capacidade de organização.

Por isso, uma avaliação cuidadosa é sempre importante.

Compreender a origem da dificuldade permite construir um caminho terapêutico mais adequado para cada pessoa.

PARA ONDE ESSA SEQUÊNCIA CONTINUA

Ao longo desta série, ansiedade, estresse, insônia, crise de pânico, burnout, autocrítica, autoestima, dependência emocional, solidão emocional, necessidade de controle e dificuldades de atenção mostram diferentes formas pelas quais o sofrimento emocional pode se organizar.

O último artigo reúne esses temas para responder a uma pergunta muito comum no consultório.

Como a terapia pode ajudar quando você já entende o que está acontecendo, mas continua sofrendo?

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